Foi minha avó quem me disse

Minha avó quem me disse traz um relato onde há quase trinta anos atrás, eu ainda um pré-adolescente morando em uma cidade da Grande Aracaju, costumava viajar com a família para alguns interiores de Sergipe. Numa dessas viagens conheci uma história que me aterrorizou durante muito tempo, tudo por causa de um pássaro que costumava passar sobrevoando os telhados de algumas casas fazendo um barulho estranho que as vezes se assemelhava a um grito prolongado de alguém, ou algo arranhando ou rasgando.

Ao menos era assim que eu imaginava. Mas tudo começou em Nossa Senhora das Dores, em uma noite de domingo, após a tradicional ida à missa. Todos estávamos reunidos assistindo “Os trapalhões” na TV (só pra se ter uma ideia de quanto tempo tem isso).

Foi minha avó quem me disse
Foi minha avó quem me disse (Ilustração: Sergipe Obscuro)

Era mais de 23hs. Lembro bem porque na casa de minha avó tinha um relógio daqueles modelos antigos com seus ponteiros rústicos e enormes que ficava na entrada da sala e a cada minuto produzia um som de “tic” bem audível. Impossível esquecer aquele barulhinho característico durante nossas dormidas.

Antes de me deitar minha avó sempre me cobria, me beijava a testa e pedia para rezarmos juntos. Mas antes de iniciarmos, subitamente minha avó olhou para o telhado, sem piscar, como se esperasse algo. Eu, um pouco assustado, tentei esboçar uma pergunta.Ela apenas gestualmente pediu para fazer silêncio e aguardar por um momento. Ouvi então um bater de asas intenso que cada vez mais se aproximava. Claro que imaginei ser um pássaro. Nada mais. Mas minha vó continuava paralisada e atenta, quando a intensidade do bater das asas aumentou exponencialmente, e logo em seguida ouvimos o som, que nunca esqueci, e, como descrevi anteriormente, não parecia ser um pássaro qualquer, mas era algo muito mais assustador, prolongado, e que além de incomodar fazia arrepiar os pelos do corpo inteiro. Ambos ficamos aguardando o desfecho. Aos poucos foi se distanciando.

Minha avó então se prontificou a me explicar que aquilo era uma coruja, muito comum na região nordeste, branca e enorme, conhecida como “rasga mortalha”, e que não era bom agouro ela passar na casa de alguém. Eu fiquei mais curioso do que assustado nessa hora. Ela hesitou em me contar o porquê, já que não queria que eu me aterrorizasse justamente na hora de dormir. Eu, é claro, insisti. Ela mandou eu ir dormir e me disse que no dia seguinte me contaria tudo. No dia seguinte, após uma noite muita esquisita, cheia de pesadelos, no café da manhã lá estava eu, super curioso, pedindo a minha avó para me contar o que ela deixou para aquele dia. Ela sorriu e me disse pra relaxar, que não era nada para nos preocuparmos, até porque a “rasga mortalha” passou no telhado da vizinha e não no dela e que a mesma continuava viva e saudável, porque de acordo com ela, a morte só vem pra quem está doente, o que não foi o caso, mas que ia me detalhar assim que eu terminasse de tomar o meu café.

Ela então me contou sobre a lenda da “rasga mortalha”, que surgiu há anos atrás por causa de um romance proibido entre uma carpideira e o filho de uma mulher muito rica, uma Condessa. Conta a lenda que a Condessa não aceitava o romance do filho com essa moça, por isso mandou assassina-la. Este ato despertou a ira do pai da moça, que se chamava “Suindara”, uma mulher bastante respeitada na região, cujo apelido era “coruja branca” devido à sua pele branca. Seu pai, uma espécie de feiticeiro, lançou um forte feitiço no tumulo da filha, conduzindo o espírito dela para dentro de uma enorme estátua de coruja branca que criou vida e alçou voo até a casa da Condessa. Com seu grito arrepiante, que se assemelhava a um pano sendo rasgado, passou a noite inteira atormentando a Condessa que apareceu morta no dia seguinte.

Mas no final minha avó apenas riu e disse que era tudo crendice e que eu não deveria encher minha cabeça com essas coisas. Afinal de contas a vizinha continuava viva, mesmo após a passada da “rasga mortalha”. Bem! O que aconteceu depois foi assustador. Ao final da tarde eu já estava indo embora com minha família, arrumando tudo no carro de meu pai para voltarmos a Aracaju. Enquanto acenávamos nos despedindo, percebi uma movimentação na casa da vizinha. De repente várias pessoas estavam conversando em frente à casa dela. Quando o carro saiu, eu vi o que parecia ser um corpo sendo carregado. Meu pai também ficou curioso e deu a volta pela praça antes de irmos embora. Ele queria passar novamente para ver o que havia acontecido e, numa segunda olhada mais próxima, vimos minha avó com a mão na boca, bastante chocada. Percebemos então que o corpo, que estava sendo carregado, era da vizinha.

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